LEIA TUDO, DEPOIS FAÇA O TEMA QUE CONSIDERO INGRATO. POUCOS ALUNOS CONHECIAM A IDEIA DO FILÓSOFO MICHAEL SANDEL. FICOU BEM DIFÍCIL ENTENDER A DELIMITAÇÃO DO TEMA. VAMOS TREINAR AGORA?
TEXTO 1
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Camarotização: por que o brasileiro gosta tanto de segregar o espaço?
TEXTO 2 - LEIA TUDO
RIO — Qual distância separa um camarote do público em geral? No sentido
literal, alguns pares de metros. No figurado, pode ser um abismo. A reflexão se
traduz num termo que vem se difundindo no Brasil e foi, há alguns dias, tema da
redação do vestibular Fuvest 2015, o processo seletivo da Universidade de São
Paulo: “camarotização”. Cunhado pelo prestigiado filósofo político americano
Michael Sandel e traduzido do inglês skyboxification, o neologismo
está associado à ideia de segregação, vista pelo autor na separação entre mais
e menos abastados em estádios e outros espaços de eventos, mas também em
diferentes lugares na sociedade. No caso brasileiro, pesquisadores destacam
casos exemplares como as áreas especialmente reservadas para os chamados VIPs
em boates, arenas esportivas, shows ou no carnaval. E associam o fenômeno a
recentes tensões geradas pelo acesso de camadas mais populares a shoppings,
bairros nobres e até mesmo a algumas praias.
— Há outros três termos ligados à ideia de “camarotização”: distinção,
desigualdade e segregação. O impulso de distinção está associado a se
apresentar ao mundo pelo consumo, de forma a se diferenciar. Já a desigualdade
e a segregação, no Brasil, são ainda mais agudas — avalia Alexandre Barbosa
Pereira professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e membro do
Núcleo de Antropologia Urbana da Universidade de São Paulo (USP).
O fenômeno é histórico no país, ressalva Pereira, citando clássicos
literários que visitaram temáticas relacionadas, como “Casa-Grande &
Senzala”, de Gilberto Freyre, e “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de
Holanda. No entanto, recentes avanços na distribuição de renda teriam agregado
novos componentes aos conflitos entre classes.
— O acesso de pessoas mais pobres a aeroportos, shoppings ou bairros
mais nobres através do metrô gera uma grita dos que antes tinham vantagens.
Essas pessoas querem preservar certas coisas porque não as entendem como
privilégios, mas como consequência de mérito ou de dom — opina, lembrando casos
que tiveram grande repercussão como os chamados rolezinhos e o episódio em que
um passageiro foi ironizado nas redes sociais por estar de bermuda num
aeroporto. — Esse processo de segregação é a negação do outro, da convivência
com ele. E, embora às vezes a violência seja pretexto para a segregação, a
segregação muitas vezes é a causa da violência.
EDUCAÇÃO DIFERENCIADA
Para o antropólogo, outra amostra de efeitos nocivos da “camarotização”
está nos resultados da avaliação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2013,
que, pela primeira vez, teve divulgadas notas por escola com estratificação nos
níveis socioeconômicos. Análises mostraram que os colégios com melhores notas
são os de faixa socioeconômica muito alta e alta, o que, para ele, indica que
apartar crianças pobres e ricas em escolas resulta em uma má distribuição do
ensino de qualidade.
A avaliação se aproxima da abordagem de Michael Sandel, cujo trabalho se
propõe a refletir sobre qual o papel do dinheiro na sociedade. Professor de
Harvard, ele é autor de palestras e textos em que afirma que a lógica de
mercado da economia se reproduziu na sociedade, penetrando instâncias como
saúde, educação e política. A mercantilização de tudo, teoriza, leva ricos e
pobres a terem vidas cada vez mais separadas. A “camarotização” representaria
ameaça à democracia, uma vez que o regime, em suas palavras, “exige que os
cidadãos compartilhem uma vida comum”. “O importante é que pessoas de contextos
e posições sociais diferentes se encontrem e convivam na vida cotidiana, pois é
assim que aprendemos a negociar e a respeitar as diferenças ao cuidar do bem
comum”, afirma, em trecho destacado pelo vestibular da USP.
Professora da Universidade de Oxford, na Inglaterra, Rosana
Pinheiro-Machado, cientista social e antropóloga, também condena o fenômeno
que, para ela, “emburrece”.
— A “camarotização” é uma expressão máxima do que temos assistido no
patético comportamento de nossas elites, que, na Europa, adoram pegar ônibus e,
no Brasil, nunca entraram em um porque tem muito povão — critica. — Ao
segregar, perde-se em diversos aspectos trazidos pela negação da alteridade. Ao
nos confinarmos, emburrecemos. Achamos que estamos agradando, mas estamos nos
tornando caricaturas do ridículo e da falta de imaginação.
A visão se distancia da interpretação de Everardo Rocha, antropólogo
especializado em consumo. Professor da PUC-Rio, ele admite que o
desaparecimento do convívio entre pessoas de classes sociais diferentes pode
ser nocivo. No entanto, em determinados casos, diz ser inevitável.
— Acho que a separação das pessoas diante do dinheiro é inerente ao sistema
capitalista — avalia. — O convívio pacífico entre diferenças é sempre uma coisa
boa. A experiência humana se enriquece dessa forma. Mas, ao mesmo tempo, é
muito difícil tornar todos absolutamente iguais diante do capital.
Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/sociedade/o-fenomeno-da-camarotizacao-15085003#ixzz4GnTi1zjE
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