as redes sociais informam ou deformam os fatos?
O Facebook, por exemplo, parece um jornal: basta abri-lo a qualquer hora do dia para ler tudo aquilo que seus amigos recomendam – obviamente delimitado pelas opiniões pessoais, políticas, jurídicas, religiosas e morais de cada um. A ideia em si é fantástica: a informação circula de forma cada vez mais rápida e fácil, trazendo cultura e conhecimento a todos. Será?
O mesmo estamos acompanhando pelo WhatsApp: grupos de discussão compartilham textos e áudios que receberam de outros grupos com informações aparentemente relevantes/preocupantes/interessantes. Mas de quem veio essa informação?
Chamam nosso tempo de “sociedade da informação” justamente por isso. Podemos saber de tudo imediatamente. O problema surge quando fatos inventados passam a ter status de notícia. “Na dúvida, eu compartilho”. Quem nunca pensou ou ouviu isso de alguém?
Alguns exemplos:
– um blogueiro, anos atrás, criou a notícia de que o ator Edgar Vivar, que interpretava o Seu Barriga no seriado Chaves, morreu. Milhões de compartilhamentos depois, o próprio ator teve de vir a público provar que estava vivo;
– outro blogueiro lança na rede que existe um aplicativo para “analisar o desempenho” das mulheres, chamado Tubby, para concorrer com o Lulu, que fazia o mesmo em relação aos homens. Virou notícia de grandes jornais e revistas, criou conflitos entre feministas, o Poder Judiciário de um Estado da Federação acolheu uma ação judicial para proibir o download do aplicativo… Que nunca existiu! Ele divulgou toda a brincadeira no seu blog pouco tempo depois de uma “entrevista coletiva” para vários veículos de imprensa que sempre julgamos sérios;
– mais um blogueiro (sempre eles! hehehehe) faz uma montagem e altera o guia de caracteres exibido na entrevista de Suzane Von Richthofen para Gugu Liberato, fazendo constar na foto: “Gugu faz surpresa e reforma a cela de Suzane”. Bombou no Face, acompanhada de textos revoltados de brasileiros patriotas insultando o apresentador – que, obviamente, sequer pensou em fazer isso.
Vocês devem estar pensando: “ok, mas é tudo brincadeira! Que há de mal nisso?”
O mal começa quando os assuntos se tornam um pouco mais sérios. Digo que vivemos hoje, muito mais do que na sociedade da informação, na “sociedade do terror”. As notícias de maior destaque em qualquer meio de comunicação são aquelas ruins. Quanto piores, maior o destaque: Estado Islâmico decapita mais um; trem descarrilha do outro lado do mundo e três morrem; vai acabar a água; vai ter recessão; o Decreto tal vai transformar o Brasil em ditadura comunista (lembram dele? Clique aqui).
Isso estimula os criativos de plantão a espalhar o terror ou o ódio contra outros grupos. Sim, o Estado Islâmico existe, mas precisamos saber de cada morte que eles causam lá longe? Daí surgem “notícias” de que existem membros infiltrados no Brasil. E a dengue? Sempre um problema, todo verão. Alguém cria um áudio alarmista sobre uma “dengue mutante”. Corre todos os usuários de WhatsApp do país. A economia está mal? Muito. Aparece um vídeo de um senhor disfarçado de militar dando detalhes de como a inteligência das Forças Armadas estaria trabalhando para tomar o poder.
De onde viria esse prazer de inventar fatos para espalhar o terror o criar ódio contra outros grupos? Acho que da supressão total de nossos filtros de conhecimento ao longo dos anos. A sociedade brasileira mudou sua “percepção-padrão”. Antigamente, quando um amigo de verdade, de carne e osso, nos contava pessoalmente um fato curioso ou polêmico, dizíamos: “ah, duvido!”. Hoje, quando um desconhecido qualquer posta um texto no Facebook dizendo que obteve tal informação de uma “fonte superconfiável”, dizemos: “nossa! Será que é verdade? Deve ser! Não duvido de mais nada desses políticos! Eles sempre escondem tudo! Vou compartilhar porque o mundo precisa saber aquilo que somente um pequeno blog de um canto da Internet descobriu de uma fonte supersecreta! Afinal, vai que é verdade?!”.
Credulidade ou ceticismo são opções de cada um frente aos fatos da vida. Contudo, melhorar a qualidade de nossos filtros sobre aquilo que lemos, principalmente nas redes sociais, ajudaria a reduzir esse elevado estado de estresse que permeia nosso dia a dia. Só assim podermos usar as redes sociais para nos informar em vez de deformar os fatos para amoldá-los ao nosso gosto.
http://www.kibeloco.com.br/2015/02/28/entrevista-legal/ (montagem com Suzane Von Richthofen)
http://www.e-farsas.com (excelente site que apura verdades e mentiras em fatos que bombam na web)