segunda-feira, 12 de outubro de 2015

A Paulista deve ser fechada para lazer aos domingos?


Aplausos ao Ministério Público, que rejeitou o resultado da audiência pública realizada no vão livre do Masp em 19 de setembro, a respeito do fechamento da Paulista como "rua de lazer" aos domingos, com a proibição do trânsito de automóveis, táxis e ônibus.
Rua de lazer para quem? Para ciclistas? Não é necessário, a ciclovia já foi inaugurada. Para que precisam das outras faixas?
Lazer para quem corre ou faz caminhada? Não é necessário, as calçadas são suficientemente largas para isso.
Já há ambulantes, legalizados ou não, espalhados pela Paulista, mesmo sem o seu fechamento. Já há comércio de alimentos. Já há músicos de rua. Os jovens passeiam por ela, em patins, skates, bicicletas, sem nenhum problema. A Paulista já é efervescente tal como está.
Há, porém, uma enorme faixa da população que ficaria impossibilitada de desfrutar do lazer na Paulista, caso esse projeto se concretizasse: idosos, indivíduos com visão deficiente ou com dificuldade de locomoção.
Essas pessoas precisam de ônibus, táxis ou de seus automóveis, para chegar aos inúmeros atrativos da Paulista, porque para elas pode ser intransponível a distância entre esses pontos de interesse e as estações de metrô ou as ruas paralelas à avenida.
As últimas administrações de São Paulo deixaram de prestar atenção a esses segmentos da população, permanentemente excluídos da maior parte das políticas de saúde pública, lazer e programas sociais.
Os espaços públicos foram tomados por jovens e grupos radicais que os utilizam como que por exclusividade, rejeitando e afugentando os idosos e deficientes, de forma ostensiva e agressiva. E a recente política de implantação de ciclovias, aparentemente sem suficientes estudos técnicos, parece exigir que todos possuam uma bicicleta e saibam manobrá-la.
E os que dizem "a Paulista vai fechar, mas o metrô vai continuar funcionando" poderiam observar que os trajetos das linhas de ônibus e a quantidade e localização de suas paradas fazem que muitos cidadãos prefiram utilizá-lo em vez do metrô.
Em 18 de agosto, o prefeito Haddad disse, com respeito à Paulista como rua de lazer: "Os estudos técnicos estão completos, mostram que é benéfico para a cidade". Certamente, a cidade de alguns, não a cidade de todos.
Diz a Lei No 10.741/2003, que institui o Estatuto do Idoso: "É obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do poder público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária."
Como os idosos, os deficientes físicos ou visuais têm igual direito à cultura, ao lazer, ao esporte, ao convívio social. Caso lhes seja impedido o acesso aos estabelecimentos na Paulista, esse direito lhes será cerceado, pelo mesmo poder público que deveria assegurá-lo.
Qualquer iniciativa para privilegiar um grupo de cidadãos em detrimento de outro constitui discriminação, exclusão social e privação de direitos. E, não nos esqueçamos de que os idosos, indivíduos com visão deficiente ou dificuldade de locomoção são cidadãos e eleitores.
A Paulista deve continuar como está, um território livre e democrático para todos, durante a semana e também aos domingos. O que a prefeitura deveria fazer é ampliar e descentralizar as opções de lazer para os moradores da periferia, que perdem horas em deslocamento, não só para trabalhar, mas também para usufruir de lazer.
Não há como promover lazer e cultura para uns, e não para outros; e não há direitos humanos se um ou mais segmentos da população se veem excluídos e marginalizados.
LIA ZALSZUPIN, 58, engenheira civil, é vice-presidente da Amacon - Associação dos Moradores e Amigos do Bairro da Consolação e Adjacênciashttp://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2015/10/1692425-deixem-a-paulista-em-paz.shtml
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